O meu percurso profissional

 

A minha aventura no mundo da pediatria começou em 2008 em Portugal, num Centro de Saúde de Lisboa, onde tive oportunidade de conhecer pessoas fantasticas, e excelentes profissionais. A base dos meus conhecimentos em pediatria devo-a à Enfermeira com quem trabalhei durante dois anos, que me acompanhou neste percurso, partilhando comigo conhecimentos e experiências, contribuindo para a minha evolução pessoal e profissional de uma forma que ela nem imagina. Tudo o que sei sobre desenvolvimento infantil começou aí. Juntamente com a minha colega, desenvolvemos e implentámos o projecto de um “Cantinho da Amamentação”nesse Centro de Saúde. Fui facilitadora de amamentação, passei horas com mães desesperadas ora porque tinham uma subida de leite catastrófica, ora porque os bebes saíam da maternidade sem conseguir mamar correctamente… Só tenho pena de não ter tido a oportunidade de fazer o curso de CAM (conselheira em aleitamento materno) nessa altura.

Aqui tive também a oportunidade de colaborar com o Nucleo de Apoio a Crianças e Jovens, os meus primeiros passos no mundo dos maus tratos infantis e das familias em risco psico-social.

Saí de Portugal em 2010, com o meu marido e o nosso filho, em busca de melhores condições de vida e de trabalho. Comecei a trabalhar na urgência pediatrica do hospital universitário de Lausana, e aí fiquei durante quatro anos. Aprofundei os meus conhecimentos em tudo o que é doença infantil, urgente, menos urgente, emergente. E adorei! Esta era a minha praia! O mundo das urgências, a adrenalina, a ausência de rotina, o começar um turno sem ter a menor ideia de como vai acabar! O poder aprender coisas novas todos os dias, uma fonte de conhecimentos que nunca se esgotava!

Neste hospital desenvolvi um projeto sobre maus tratos infantis – prevenção, detecção e sensibilização, que me valeu o posto de enfermeira de referência do hospital nessa matéria. Ao fim de quatro anos, senti que precisava fazer uma pausa nas urgências, comecei a sentir alguma dificuldade em separar o lado profissional e o pessoal. Com dois filhos pequenos via o perigo em todo o lado. Era altura de mudar. Altura de voltar a encontrar os recém-nascidos e uma das fases mais belas do ciclo da vida: o nascimento.

Foi assim que em 2014 comecei a trabalhar na maternidade de um hospital da periferia, com o selo UNICEF “Hospital Amigo do Bebé”, onde permaneci dois anos, na condição de também aí coordenar uma equipa para desenvolver um projeto na área dos maus tratos infantis e risco psico-social. O trabalho na maternidade foi um trabalho que adorei, ali reencontrei os recém-nascidos, a amamentação, as mães e os pais felizes mas tantas vezes inseguros. É uma relação muito diferente da que se tem com os pais num serviço de urgência. Aqui é um acompanhamento, um transmitir confiança, com muita paciência, empatia e sem julgamentos, mas de um modo muito mais profundo. Aqueles pais contam connosco! E veem em nós as pessoas que os vão ajudar a ultrapassar o medo de pegar num recém-nascido, que os vão ajudar a superar o desafio do primeiro banho! É uma relação de curta duração, mas intensa e de uma cumplicidade enorme, afinal, estamos presentes num dos momentos mais importantes da vida do casal: o nascimento de um filho! E é um privilégio! E a sala de partos foi a minha cereja no topo do bolo! No parto estavam presentes uma parteira e a “nounou” (como eu!), que era a enfermeira responsável pelo bebé desde o momento do nascimento até ser transferido para o pós-parto. Aqui era onde alimentava o meu lado “urgentista” que precisava da sua dose de adrenalina. Quando nasce um bebé é assim como uma espécie de urgências (nunca sabemos em que estado esta o bebé até o vermos!) mas sem a urgência na maioria dos casos (felizmente!). É o ter de estar preparada para tudo, e esperar não precisar fazer nada… É ter sangue frio para agir quando é preciso. E é ter a lagrima no canto do olho quando tudo corre bem! Foi uma experiência riquissima, e sinto-me muito realizada por ter tido esta oportunidade!

Desde o nascimento do nosso terceiro filho, o Francisco em 2015, que tive vontade de me tornar mãe a tempo inteiro, e em 2016 com a nova mudança de País, acabei por dar esse passo. No entanto depressa me apercebi que sou demasiado apaixonada pelo meu trabalho e que ficar sem trabalhar durante uns anos não seria uma opção. Comecei então a elaborar um projecto profissional: queria continuar a trabalhar com as familias, mas sem regressar ao meio hospitalar, aos turnos, às “imposições/obrigações” que eram transmitidas aos pais. Decidi então que iria investir numa “empresa” de acompanhamento parental aqui na região onde moro, em França. Queria ser um recurso para as familias, onde estas poderiam encontrar não só apoio em tudo o que diz respeito à amamentação, mas também nos desafios da parentalidade. Onde pudessem receber informação credivel e actualizada, sem imposições nem obrigações, num ambiente sem julgamentos, e onde cada familia é respeitada nas suas decisões. Devolver confiança às competencias parentais das familias que acompanho.

E enquanto planeava tudo isso, a Rede Amamenta surgiu na minha vida na altura certa, por intermédio de uma amiga que me falou da Rede e que me disse que havia já um Polo em França. E  abracei um novo e apaixonante projeto chamado Amamenta France !

Sendo mulher, mãe de quatro crianças, estou plenamente consciente de todos os desafios diários que enfrentamos neste magnifico papel de pais. Conheço “o outro lado”, o lado de quem está constantemente a ouvir “não faças assim, devias fazer assado”. Como mãe, já vivi, continuo a viver e ainda viverei o que a grande maioria de vós vive, o que me dá uma motivação complementar para continuar neste caminho!

É um prazer escrever para vocês!

“Escolhe um trabalho que amas, e não terás de trabalhar um único dia na tua vida” Confúcio

Assim vai a vida… aos olhos de uma enfermeira!