À conversa com… Mikaela Övén

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Olá Mia, em primeiro lugar muito obrigada por ter aceite o meu convite para estar connosco aqui no blog “A nossa mãe é enfermeira”!
No meu trabalho com as mães, um dos meus objectivos é tentar desmistificar as questões ligadas ao colo e ao contacto físico, que são necessidades básicas dos bebés.
A Mia é a maior referência da parentalidade consciente em Portugal, o que pode dizer-nos sobre a importância de se tentar responder de forma adequada às necessidades do bebé/criança?
Todos nos fazemos o que fazemos para satisfazer as nossas necessidades. Podemos começar pelas necessidades fisiológicas. Comemos e bebemos porque temos necessidades filosóficas de nos alimentar e hidratar. Todos sabemos disso. Os bebés e as crianças tem determinado tipo de comportamentos para nos comunicarem que precisam de preencher essas necessidades. Um bebé pode por exemplo chorar (já agora, normalmente este comportamento é o cúmulo de uma série de dicas que o bebé nos deu até lá, mas que não vimos). Tal como temos necessidades fisiológicas também temos necessidades psicológicas/emocionais. Para facilitar, eu costumo falar em quatro tipos de necessidades, a conexão e pertença, a experiência e novidade, a segurança e o controlo e o reconhecimento e a significância. Todos nós temos estas necessidades, crianças e adultos. E se olharmos para a origem do nosso comportamento vemos que estamos a agir para preencher essas necessidades. Por exemplo, procuro o meu marido para um abraço para sentir conexão, leio um artigo sobre parentalidade para sentir mais segurança. Podemos ter formas mais adequadas e saudáveis para preencher as necessidades e formas que nos fazem sofrer a nós e aos outros. Por exemplo, em vez de procurar o abraço e dizer que quero mimos, começo a cobrar ao meu marido o facto dele chegar tarde a casa e estar mais atento ao telemóvel do que a mim. Com os nosso filhos é exatamente igual. Muitos dos nossos comportamentos são inconscientes, principalmente nas crianças. Aquilo que realmente conseguimos ver, não é o problema, no fundo, é a solução que a criança (inconscientemente) arranjou para resolver o verdadeiro problema- a necessidade em falta. Se eu me focar em corrigir apenas o comportamento perco uma grande oportunidade de resolver o verdadeiro problema, pois seu eu conseguir satisfazer a necessidade, o comportamento (a tal solução que a criança arranjou) deixa de ser necessário. Se eu me focar apenas no comportamento, não vejo o meu filho, perco uma oportunidade de o ficar a conhecer melhor e de criar uma boa relação com ele. Resumindo, responder adequadamente às necessidades do bebé/criança é essencial para criarmos boas relações com eles, pois a solução está sempre na relação.
O que acha da ideia que existe de que os bebés que recebem muito colo e que veem as suas necessidases satisfeitas ficam “mal habituados”?
Sorrio, e penso que quem utiliza estes argumentos sabe pouco sobre o mundo… sobre antropologia e sobre desenvolvimento humano. Viajo todos os anos para a Índia. Interajo com famílias indianas onde todos dormem juntos e as crianças andam ao colo todos os dias. E quem diz Índia, diz muitos outros países… As crianças mais autónomas e independentes que vejo não são as que recebem pouco colo e que dormem separados dos pais. Além disso, existe demasiada ciência para continuar com esses argumentos.
Considera que a nossa sociedade é um obstáculo à paratentalidade consciente?
Considero que neste momento na nossa sociedade há uma grande vaga de interesse por uma parentalidade ”diferente”, pois o que se tem andando a fazer, não funciona e cada vez mais pessoas sentem isso. Para praticar parentalidade consciente não é preciso ser Mãe ou Pai a tempo inteiro, morar no campo ou colocar os filhos numa escola Waldorf. Para ser um pai/uma mãe que pratica parentalidade consciente é necessário ter as suas intenções bem definidas e escolher estratégias e formas de estar e ser que vão de encontro a essas intenções. Se falarmos sobre o sistema de ensino, infelizmente ainda existem grandes barreiras, mas está a mudar.  Acho que temos de ter paciência.
De que forma é que isso pode ser ultrapassado?

A única forma que conheço de ”convencer” alguém que a parentalidade consciente é a parentalidade ”certa” (por favor repara nas aspas!!!) é eu praticar PC com toda a gente! Muitas vezes quando entramos neste mundo estamos super focados nas crianças e a forma como interagimos com elas. Mas com as outras pessoas que não acham ou fazem como nós agimos de uma forma agressiva, a nossa comunicação não é nada consciente e julgamos imenso. Temos de tratar as ”birras” dos adultos com os mesmos princípios que tratamos as ”birras” das crianças. Com empatia, compaixão, um foco nas necessidades e uma comunicação consciente. Uma pessoa que reage mal à forma como eu educo fá-lo porque está a tentar preencher as suas necessidades! Eu acredito plenamente que esta forma de estar e ser através da parentalidade consciente pode, e vai, mudar o mundo. 🙂

Acha que as mentalidades estão a mudar?
Sim, certamente! Há cada vez mais interesse! E mais que tudo, há cada vez mais pessoas a sentirem que a forma como estão habituados a agir, a forma como as crianças são tratadas nas escolas, não estão a funcionar, não estão a satisfazer as necessidades de ninguém. Nem dos adultos, nem das crianças. Ou seja, chegamos a um ponto de viragem onde não se pode voltar atrás, a vontade geral de preencher as necessidades de formas mais saudáveis é enorme!
Que mensagem gostaria de deixar às mães que nos estão a ler? E aos familiares e amigos dessas mães?
Ainda hoje li uma citação do Calvin & Hobbes: ”I will take care of myself for you. And you will take care of yourself for me.” (Vou cuidar de mim por ti. E tu vais cuidar de ti por mim). Isto é pura sabedoria. Uma das nossas principais tarefas como pais é oferecer aos nossos filhos as capacidades e competências necessárias para eles poderem e saberem cuidar de si, não só fisiologicamente como também emocionalmente e psicologicamente. Eles têm de saber preencher as suas próprias necessidades. Na parte da fisiologia, estamos mais ou menos bem, onde se tem feito um trabalho miserável é ao nível emocional e mental. E é isso agora que temos mesmo de fazer diferente. E isso começa com nós mesmos. Sem eu preencher o meu próprio copo, não vou ter nada para colocar no copo do outro. Quando cuido bem de mim, com amor, com compaixão, cuidarei bem do outro.
Que balanço faz do seu percurso em parentalidade consciente?
Para mim pessoalmente tem sido incrível. A parentalidade consciente tornou a minha vida muito, mas muito mais simples. Mais fluida e mais feliz. E aconteceu o mesmo com as pessoas da minha família, incluindo os meus filhos obviamente (sendo que o mais novo não sabe outra coisa). Parentalidade consciente é mais um desaprender do que um aprender. Significa livrar-me de crenças, conscientes e inconscientes. Significa escolher felicidade e conexão antes da vontade de ter razão. Ainda hoje, às vezes, acontece reagir de acordo com crenças antigas, em situações de stress quero muito ter razão. Felizmente, vejo-me rapidamente de fora e volto para as minhas intenções. Adicionado a minha experiência pessoal tenho todos os relatos de milhares de pessoas que me contactam e contam como estas ideias mudaram a sua vida… Quero frisar que isso não quer necessariamente dizer que haja menos conflitos, um conflito existe quando há diferenças de opinião/vontade, o segredo está na forma como nos relacionamos com os conflitos… e conflitos, lágrimas e desentendimentos, fazem todos parte de uma infância feliz!
Sei que a Mia trabalha para levar a parentalidade consciente a todos os cuidadores, e que tem desde cursos online e presenciais a livros sobre o tema. O que aconselha para quem está a começar a entrar neste mundo fantástico da parentalidade consciente?
Talvez um bom começo possa ser ler o ”Educar com Mindfulness” e/ou explorar os artigos no blog da Academia de Parentalidade Consciente. E quando fazem isso, lembrem-se que é normal sentir culpa, aproveitem essa culpa para a transformar em ação consciente. Alinhando essa ação com as tuas intenções, com a mãe/pai que queres ser. Talvez estas palavras do Marshall Rosenberg, o pai da comunicação não violenta, possam inspirar: ”What I want in my life is compassion: a flow between myself and others, based on mutual giving from the heart.”
Mais uma vez muito obrigada Mia, não só por esta entrevista, mas por todo o trabalho que tem feito!
Assim vai a vida… à conversa com Mikaela Övén!

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