Sobre a greve dos Enfermeiros

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Há coisas que me deixam com o couro cabeluro eriçado, e uma delas foi uma recente manchete do JN. Podia ler-se “Enfermeiros querem ganhar mais que médicos”.

Mas a cereja no topo do bolo foram os comentários que li da maioria dos Portugueses a essa noticia e à revolta dos Enfermeiros.

Há 7 anos que não exerço em Portugal mas estou totalmente solidária com os meus colegas.

Para quem ainda não percebeu, passo a explicar alguns pontos importantes:

– Um Enfermeiro deixou de ter carreira, logo, temos Enfermeiros com dez e vinte anos de experiência a ganhar o mesmo que um Enfermeiro em inicio de carreira. Justo? Não creio.

– Um Enfermeiro trabalha muitas vezes mais horas do que é suposto sem nunca conseguir recuperar essas horas – nem através do pagamento de horas extra, nem em horas de descanso (folga). Justo? Não creio.

– Um Enfermeiro para fazer uma especialidade, além de recursos financeiros necessita de muita força de vontade. O estado em nada – repito: N A D A! – contribui para a formação de um Enfermeiro especialista. Justo? Não creio.

– Um Enfermeiro para fazer uma especialidade passa entre ano e meio e dois anos a trabalhar a MAIS DE 200%: faz as suas horas normais de trabalho no seu serviço, faz o mesmo número de horas em estágio e ainda outras tantas horas em frente aos livros e computador a realizar os trabalhos académicos exigidos, obviamente sem qualquer remuneração pelas suas horas de trabalho no local de estágio. Justo? Não creio.

– Um Enfermeiro para fazer uma especialidade não tem quaisquer tipo de “ajudas de custo” ou dispensa do horario de trabalho. Justo? Não creio. Em jeito de comparação, por exemplo na Suiça (pelo menos em Lausanne onde trabalhei) as especialidades e pós-graduações não só são pagas pelo hospital – que obviamente tem interesse nessa formação do seu Enfermeiro – como as horas da formação entram na contagem das horas de trabalho semanais.

– Quando finalmente o Enfermeiro completa esses cerca de dois anos de formação, não vê qualquer alteração em termos de estatuto ou remuneração, mas vê – na maioria dos casos – as suas funções e responsabilidades alteradas de acordo com a sua nova formação. Justo? Não creio.

– O estado usa e abusa da boa vontade e do profissionalismo dos Enfermeiros a CUSTO ZERO. Justo? Não creio.

Por isso, caros Portugueses, deixem-me dizer-vos que não, os Enfermeiros não querem ganhar mais que os médicos, nem que os professores, nem que os psicólogos ou educadores de infância! O que os Enfermeiros querem é apenas o justo reconhecimento remuneratório pelas suas funções!

E se algum dia ficarem dependentes dos cuidados destes profissionais irão perceber que eles merecem isso e muito mais!

Assim vai a vida… aos olhos (tristes) de uma Enfermeira!

 

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