A culpa das mães!

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Ao longo desta minha caminhada como mãe, e como profissional numa fantastica posição de proximidade com as mães, posso afirmar que existem essencialmente dois sentimentos comuns à grande maioria das mães, sejam quais forem as suas convicções: o primeiro é o amor incondicional pelos filhos, o segundo é o sentimento de CULPA. Isso mesmo C U L P A .

Todas as mães se sentem culpadas por isto ou por aquilo. É como se a culpa passasse a fazer parte do nosso ADN quando nos tornamos mães.

Culpada por engravidar… “E agora o que vão dizer no trabalho??”

Culpada por ir trabalhar mesmo sabendo que não tem escolha… “Como é que eu posso ser tão má e deixar o meu bebé de 3 ou 4 meses numa ama ou numa creche??”

Culpada por querer estar sempre com o bebé no colo ou por dormir com o bebé “Todos me dizem que vou criar um bebé mimado e mal habituado!!”

Culpada porque como todo e qualquer ser humano tem dias mais dificeis e está menos disponivel para o(s) filho(s), culpada por não conseguir ter a roupa em dia, a casa impecavelmente limpa e arrumada, culpada por não conseguir ter tempo para si nem para o casal! “Afinal, se as outras conseguem, porquê que eu não consigo?? Devo ser mesmo incompetente.”

Deixem-me que vos diga uma coisa: as outras também NÃO conseguem! Todas passamos por algumas ou todas estas dificuldades! Mas na realidade poucas de nós falam sobre isto…

Todas passamos por fases em que estamos exaustas, em que não temos paciência para os miudos ou em que temos zero apetite sexual!

São fases, como tal, são passageiras. Resta-nos encarar isso de uma forma mais ou menos natural e arranjar estratégias para minimizar os estragos.

Agora falemos de responsabilidade: quem são os responsaveis por isto? TODOS. A sociedade, os amigos, a familia, e até nós próprias!

A sociedade porque criou esta ideia fantastica e aberrante de que se as mulheres querem direitos iguais, tudo bem, mas nesse caso terão de juntar tudo o que conquistaram até aqui (posto de trabalho, responsabilidades laborais, chefias de empresas etc) com aquilo que já faziam: ser mães e donas de casa.

Pois deixem-me dizer que não era isto que se pretendia quando se pediram direitos iguais. Pediu-se principalmente o direito a ser respeitadas e valorizadas como seres humanos e como cidadãs. O direito ao reconhecimento das nossas competências para liderar e chefiar equipas e ter postos trabalho de altas responsabilidades. O direito a uma remuneração justa e adequada pelas nossas funções.

Não foi pedido que desrespeitassem as mulheres, que fizessem pressão para não engravidarem, e que quando isso acontecesse fossem alvo de ameaças e despedimentos.

Não foi pedido que desrespeitassem as mães, negando direitos como a licença de maternidade, as horas de amamentação ou qualquer outro direito sob risco de represálias reais ou potenciais.

Não foi pedido que desrespeitassem os bebés, atribuindo licenças de maternidade irrisórias e separando-os das mães numa altura em que eles ainda nem sequer se aperceberam que eles e as mães são pessoas diferentes.

Não. Foi pedido acima de tudo valorização e respeito, e neste momento, caras colegas de equipa, não temos uma coisa nem outra.

A unica coisa que conseguimos com tudo isto foi aumentar a pressão nas mulheres e com ela também o sentimento de culpa e incompetência.

Os amigos e a familia são igualmente culpados porque têm sempre uma crítica (de preferência destrutiva) a fazer à mãe. Se dá mama o bebé fica com fome, se dá biberão nem para dar mama serviu, se dá resposta às necessidades do bebé está a criar um mimado, se deixa o bebé chorar por 5 minutos para poder tomar banho é uma vilã.

Ainda não consegui perceber se isto é pura falta de respeito pelas escolhas dos pais, se é um querer impor as suas próprias escolhas e ideias, ou se é pura e simplesmente porque há uma ideia de que mãe que se preze tem de ser posta em causa.

Não poderiamos todas nós, mulheres trabalhar pelo bem comum? Não procuramos todas o mesmo? Porquê esta sede de criticar e mostrar que a outra está errada? Será uma tentativa de valorizar as próprias competências de quem critica? Será que só há uma forma correcta de educar uma criança? Não. Não se trata de certo ou errado. Trata-se uma vez mais de respeito! Respeito e empatia!

Por fim, nós próprias somos responsáveis. Por toda a pressão que permitimos que seja colocada nas nossas costas. Por querermos ser perfeitas quando sabemos que a perfeição simplesmente não existe. Porque somos as primeiras a consolar os maridos quando sabemos que tiveram um dia dificil, mas somos muito menos condescendentes connosco próprias. Porque insistimos em achar que a responsabilidade de manter a casa em ordem é maioritáriamente nossa, quando já temos tanto a gerir! Eu acuso-me! Sofro de todas estas maleitas, e as vezes tenho ideia de que até o meu marido me respeita mais a mim e aos meus limites do eu própria! Mas o respeito tem de vir de nós em primeiro lugar. Respeito pela nossa condição humana. Respeito pelos nossos próprios erros, pelas nossas próprias fraquezas. E acima de tudo, pelas nossas escolhas!

Por isso luto tanto para que, pelo menos, relativamente às questões da pediatria e das necessidades do bebé as mães sejam correctamente informadas. Só assim poderão estar seguras das suas escolhas – sejam elas quais forem, mas que sejam escolhas informadas e ponderadas – e assim manter a sua posição sem culpas independentemente de opiniões alheias.

Por isso, penso que está na hora de dizer basta a esta sociedade cada vez mais materialista, e cada vez menos humanizada, que grita em plenos pulmões que as crianças de hoje são os adultos de amanhã, mas que nada faz para garantir que esses futuros adultos tenham uma infância respeitada.

Está na hora da mulher ser consciente e mestre das suas decisões, e de deixar de aceitar ser posta em causa só porque sim.

E, principalmente, está na hora da mulher parar de ter pena de si própria, e de assumir os seus sentimentos e as suas próprias necessidades.

Está na hora da mulher começar a RESPEITAR-SE! E não se esqueçam… o futuro começa HOJE!

Assim vai a vida… aos olhos de uma mulher!

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2 Comments
  1. Marisa Santos 5 meses ago
    Reply

    Olá Cátia. Não a conheço pessoalmente nem nunca trocamos mensagens mas, a Cátia foi a chave que abriu o meu coração para a maternidade. O seu vídeo acerca do stress do recém nascido ajudou-me imenso e só lamento não o ter visto antes. Depois de ver o seu vídeo comecei a ver a minha bebé e a mim de outra forma, sem tanta culpa e com muita vontade de aprender e crescer. Muito obrigada. Sem aquele vídeo hoje seria uma mãe mais triste e insegura.

    • Catia Godinho 5 meses ago
      Reply

      Marisa muito obriga por este magnifico feedback! Vocês também me ajudam muito a crescer ❤

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