Vacinação, uma responsabilidade social!

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Escrevi o texto de hoje para o meu blog profissional Amamenta France, mas o assunto é tão pertinente que achei que merecia um lugar também aqui…

Nos ultimos meses, este assunto tem sido alvo de acesas discussões na internet e fora dela.

Sou profissional de saúde, e a minha visão vale o que vale, no entanto este é um assunto demasiado sério para ser debatido com a ligeireza que vejo habitualmente.

Se por um lado a vacinação é uma decisão dos pais, por outro lado, essa decisão vai influenciar toda uma comunidade. A consequências de vacinar ou não vacinar vão muito além do seio de cada familia.

Até há uns anos atras, quem decidia não vacinar estava a tirar proveito de uma alta cobertura vacinal em termos comunitários. O que quer isto dizer? Que enquanto havia uma grande cobertura vacinal em termos comunitários, a prevalência de certas doenças era irrisória, portanto, mesmo quando alguém tomava a decisão de não vacinar os seus filhos, estes beneficiavam da proteção de grupo que mantinha as doenças “longe”.

Com o passar dos anos e o crescimento dos chamados “movimentos anti-vacinas”, o numero de crianças não-vacinadas foi crescendo um pouco por toda a europa, e os casos mais ou menos esporádicos que beneficiavam da proteção de grupo, passaram a ser mais consequentes e a abrir “janelas” de não-cobertura permitindo que certas doenças se voltassem a propagar. A escolha que antes era vista como um “aproveitamento injusto”, hoje coloca em causa a segurança de todos.

Em 1998 uma revista publicou um artigo que relacionava certas vacinas com o autismo, o que causou o pânico e levou a um aumento brusco de crianças não-vacinadas. Esse estudo no entanto continha graves irregularidades e foi retirado pouco tempo depois. No entanto continuou a circular e as consequências têm sido terriveis.

Não há qualquer estudo sério e reconhecido sobre este assunto.

Se as vacinas poder ter efeitos secundários? Claro! Todos os medicamentos podem ter.

Porquê que os profissionais de saúde não informam os pais de tais efeitos secundários? Da mesma forma que não informam os pais de cada vez que prescrevem um paracetamol (vulgo ben-u-ron) ou um antibiótico.

Os pais têm acesso à bula das vacinas compradas, quanto às outras, os pais podem sempre pedir a bula aos profissionais e isto nunca será recusado!

Todos os medicamentos têm efeitos secundários.

O parecetamol por exemplo. Parece um medicamento inofensivo, mas está longe de o ser! Há quem use e abuse deste medicamento, e ouço até muitas vezes “até as gravidas podem tomar!”. No entanto, tem havido estudos que indicam que não será assim tão inofensivo na gravidez. E uma sobredosagem séria de paracetamol, seja em crianças ou adultos, pode ter consequências gravissimas!

Mesmo o paracetamol deve ser usado com muita precaução. Muitas vezes, as mães perguntam se devem medicar o bebé antes da vacina. A resposta é não. Medicação é para ser utilizada em casos de verdadeira necessidade. Dar um ben-u-ron antes da vacina não vai diminuir a dor da picada. Para isso há outras formas de alivio da dor que podem ser postas em prática no momento, como dar de mamar, por exemplo. O ben-u-ron pode ser dado após a vacina, se o bebé ficar irritavel, ou com sintomas locais, mas a maioria dos bebés nem chega a necessitar de medicação!

Stevens-Johnson é outro exemplo de um efeito secundário extremamente raro mas gravíssimo que pode ocorrer após a toma de qualquer medicamento em qualquer altura da vida, mesmo já tendo tomado o medicamento questão varias vezes!

Um dos medicamentos mais associados a esse síndrome é a amoxicilina. A amoxicilina é o principal componente dos antibióticos mais prescritos. Mas quantas pessoas sabem disso?

Será que os profissionais de saúde deviam alertar para estas questões? Se calhar deviam! Sempre que um medicamento é prescrito deveria haver uma espécie de “consentimento informado” sobre este assunto. Algo simples marcado na receita e que as pessoas deviam assinar, algo do género “Todos os medicamentos são susceptiveis de causar efeitos secundários, em casos raros esses efeitos podem ser graves. Declaro que tomei conhecimento deste facto e para mais informações comprometo-me a ler a bula do medicamento prescrito”.

Mesmo quando o assunto são vacinas!

E isto é uma questão de saúde publica.

Não vacinar com base em mitos ou artigos duvidosos coloca em risco anos e anos de avanço em saúde pública!

Temos a sorte de ter nascido numa zona do globo que nos permite ter acesso a cuidados de saúde que estão a anos luz de outras regiões. Temos a sorte de ter à nossa disposição recursos que nos permitem prevenir certas doenças.

A questão da vacinação está longe de ser uma decisão que afecta apenas cada um de nós!

A OMS está em alerta com a situação actual. O sarampo, que estava perto de ser uma doença erradicada na Europa, voltou em força e está a tornar-se preocupante! Há já dezenas de mortes a lamentar e centenas de casos por toda a Europa!

Longe de serem doenças “benignas”, a vacinação é a única forma de garantir a proteção de toda uma população, incluindo de quem por razões de saúde não se pode vacinar.

A proteção dos bebés pequenos e das pessoas imunodeprimidas (entre outros!) dependem da proteção comunitária! Se certas doenças podem ser quase inofensivas para crianças e adultos saudaveis, são potencialmente fatais para bebés e pessoas imunodeprimidas, como é o caso, por exemplo, da tosse convulsa. Mas há mais!! E a esmagadora maioria pode ser prevenida através da vacinação!

A vacinação, sendo fortemente recomendada, não é obrigatória na maioria dos países. Em Portugal não há vacinas obrigatórias. Em França só a DTP (difteria, tétano e poliomielite) é obrigatória.

No entanto, a vacinação mais que uma obrigação, é uma responsabilidade.

Todos nós, que vivemos em sociedade, temos uma responsabilidade comunitária! Uma responsabilidade que vai muito além das nossas quatro paredes!

Vale a pena pensar nisto 😉

Aqui fica a reportagem da sic sobre o assunto, e os links da OMS em francês e inglês sobre alguns mitos associados à vacinação…

Amamenta France, existimos para informar!

 

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14 Comments
  1. Ana Brito 2 meses ago
    Reply

    Olá mamã bom dia !
    Como estão , tu bem ?
    Espero que sim…
    Uma dúvida o meu marido também está a trabalhar na Suíça e agora como faço ? Ser melhor levar essa vacina ? Já agora o meu bebé está com 21 dias hoje mas não sei o que fazer na minha alimentação pois os médicos dizem uma coisa os enfermeiros outra e já não sei o que fazer ainda por cima agora fico com mta fome nunca comi tanto e com a gravides só ganhei 6 quilos ! Comia mts legumes e agora não sei se posso ou não comer até ando mês presa dos meus intestinos por favor ajude me Obrigada

  2. Paula 1 ano ago
    Reply

    Olá,
    em que zona da Suiça estás a viver?

    • Catia Godinho 1 ano ago
      Reply

      No cantão de vaud 🙂

  3. Catia Godinho 1 ano ago
    Reply

    Duas semanas de risco, (que não é risco, é somente igual a antes de fazer a vacina) para uma vida de protecção… a bula vem na caixa da vacina, é só pedir, tal como para qualquer outro medicamento dado em meio hospitalar… quanto às alergias é igualmente como para todos os outros medicamentos, so na primeira vez que se toma é que se sabe se será alergico ou não…

  4. Andreia 1 ano ago
    Reply

    Entendo o que diz e agradeço mas não concordo. Diz que quando um vírus é detectado por um organismo vacinado, o mesmo é automaticamente combatido. Isso não significa que a pessoa vacinada não vai contrair o vírus e “viver” com ele durante uma temporada. Onde quero chegar, a pessoa vacinada contrai a doença de qualquer forma. Se os efeitos vão ser mais “leves” ou não, aí já é outro assunto.
    Quanto às 2 semanas, deu-me razão: a pessoa vacinada funciona como veículo de contágio. Foi o que eu disse.

    • Catia Godinho 1 ano ago
      Reply

      Andreia as duas semanas são só logo a seguir à toma da vacina, pois esta necessita de duas semanas para ser eficaz 😉

      • Andreia 1 ano ago
        Reply

        Exactamente. Duas semanas de risco… a cada vacina apanhada. Para mim, um dos contra sensos deste processo.
        É como ler no plano nacional de vacinação que não devem ser administradas vacinas às crianças alérgicas aos componentes das vacinas. Não é apresentada a bula aos pais, quanto mais feitos testes?!

  5. Andreia 2 anos ago
    Reply

    Partindo do pressuposto que as vacinas funcionam, às seis semanas o bebé ainda não teria sido vacinado para a tosse convulsa, certo? (Em Portugal está prevista aos 2 meses). Por outro lado, as consequências das vacinas vão muito para além de uma associação ao autismo. O primeiro estudo do dr. Wakefield foi desacreditado (sabe-se lá porquê) mas há imensos outros que importam ler. Este assunto é demasiado sério para ser encarado com leviandade, para os pais aceitarem colocar duas palas e não quererem sequer ler a bula da vacina antes de injectarem 5 vírus no corpo de uma pequena criatura. Quanto à erradicação das doenças, continuo à procura de um gráfico que não mostre que estas já estavam em declínio antes da introdução da vacina e outro que mostre que não houve booms de casos exactamente por isso mesmo. Se tiver essa informação, partilhe por favor.

    • Catia Godinho 2 anos ago
      Reply

      Exactamente por causa da primeira dose da vacina ser aos dois meses, e de não estar protegido antes da 2a dose, é importante que as crianças que estão em contacto com o bebé sejam vacinadas. Neste caso foi o irmão não vacinado que transmitiu a doença ao bebé.
      As vacinas começaram a ser introduzidas precisamente para diminuir a incidência de certas doenças. A verdade é que nos custa ver jogado fora tantos anos de trabalho e prevenção em saude publica, e mais que isso, custa ver morrer crianças com doenças que poderiam ser evitadas. Mas como disse isso pertence à consciencia de cada um. Eu vacino os meus, não posso nem quero obrigar ninguem a vacinar, mas também não aceito que crianças não vacinadas contactem com os meus antes de estes estarem protegidos. 🙂

      • Andreia 1 ano ago
        Reply

        O princípio das vacinas não é repelir a doença mas sim ensinar o corpo a combatê-la. Supostamente, injecta-se o vírus que, com a ajuda de todos os outros componentes, vai irritar o sistema imunitário e fazê-lo produzir defesas para aquele vírus. Mais tarde, se contraída a doença, o corpo reconhece e combate. Certo? Então, independentemente, de ser vacinado, o irmão mais velho iria contrair a doença da mesma forma. As pessoas não vacinadas não são um poço de doenças. Apenas combatem essas doenças, quando contraídas, de forma diferente. Já as pessoas vacinadas com vírus vivos mesmo que atenuados, transportam esse vírus umas duas semanas. .. estou errada?

        • Catia Godinho 1 ano ago
          Reply

          Andreia está certa quando diz que o principio das vacinas é combater o virus, desta forma assim que o virus entra em contacto com um organismo vacinado este é automaticamente combatido sem “ter tempo” de proliferar, ou seja, um organismo vacinado não funciona como veículo ou transporte de vírus, se fosse esse o caso seria completamente fora de contexto vacinar os pais dos recém-nascidos. A questão das duas semanas – e pode ser isto que a levou a ficar com uma ideia que não é correcta – é que após serem vacinados, durante duas semanas ainda não estão protegidos e nessas duas semanas pós-vacinação podem de facto não só contrair a doença como funcionar como “veiculo de contagio”… espero ter respondido à sua questão 🙂

  6. Raquel 2 anos ago
    Reply

    Vacinação sim, sem qualquer dúvida. E quanto ao autismo, não há qualquer evidência científica que mostre qualquer relação entre autismo e vacinação.

    • Catia Godinho 2 anos ago
      Reply

      Apesar de tudo ainda muitas pessoas que têm mais medo das vacinas do que das doenças que estas previnem…

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